Segunda-feira, Março 08, 2004
o que vou contar hoje... é a primeira vez retorno a esses acontecimentos. não tenho orgulho deles, como não tenho orgulho de quase nada mais, nos dias que se seguiram... mas foi assim que aconteceu...
a chuva lavava as marcas de meu nascimento macabro, enquanto eu escutava passos vacilantes em minha direção.
havia algo de diferente... a noite estava clara, quase como o dia... mas ainda assim, diferente: sombrio, porém incrivelmente cheio de detalhes. e os sons! por deus, eu conseguia escutar a noite! cada farfalhar de asas das aves que caçavam à noite, cada gota de chuva que caia, era como uma sinfonia de tons para meus ouvidos.
mas a dor, a dor ainda me tomava o corpo... queimando... corroendo... fazendo com que cada átimo do meu corpo gritasse de dor.
percebi a luz de uma lanterna se aproximando, por trás de mim.
levantei-me, olhando na direção da luz e fiquei paralisado diante do brilho. todas aquelas cores! a chama da lanterna queimava em tons que eu nunca havia visto antes. de repente, percebi o homem que estava segurando a lanterna também paralisado, olhando para mim. dei um passo em direção à luz e gritei para ele, pois temi que minha voz não saísse, porque todo meu corpo parecia ter ficado muito tempo sem uso.
- senhor... ajude-me!
o homem soltou uma interjeição e pois-se a correr como louco.
mesmo com a lanterna, ele tropeçava entre os túmulos. corri logo atrás dele, porque eu precisava sair dali. precisava voltar para helena e descobrir os culpados por aquilo tudo ter acontecido comigo.
conforme eu corria, desviando por entre os descansos dos mortos, um entusiasmo tomava conta de mim... senti-me quase como uma criança novamente, brincando de esconder.
a brincadeira não se estendeu por muito tempo, porque o homem havia caído e estava desacordado, após ter tropeçado e rolado por vários metros, descida abaixo...
me aproximei dele, sentindo o ar doce da noite... e algo mais...
algo ainda mais intoxicante...
abaixei me ao lado do corpo... meus olhos estavam fechados, pois o aroma tomava toda a minha atenção... era doce, mas ao mesmo tempo muito forte. subitamente, a dor em meu corpo se tornou mais acentuada, mais profunda.
todo meu corpo parecia se mover de maneira diferente... eu não me sentia mais no controle de minhas ações. parecia que algo mais forte do que eu comandava as minhas ações, agora.
um som chamou minha atenção. cadenciado como um relógio. um barulho surdo. batidas... um coração... eu conseguia ouvir as batidas no coração do homem! o latejar em minha cabeça tomava o mesmo ritmo das batidas daquele coração. e todo o som pareceu se resumir a aquela cadência...
eu não tinha idéia do que estava acontecendo ali. mas era algo muito maior do que eu. algo maravilhoso e terrível. era como assistir uma tormenta se formar nos céus. o momento em que você deixa de ser apenas você e toma parte em algo eterno.
eu estava me tornando a tormenta.
abri os olhos, calmamente... sentindo a infinidade de novas cores preencher a realidade... olhei para os céus, pois a chuva havia parado e era possível ver algumas estrelas, por entre as nuvens. a noite era minha... aquele momento era meu.
o rosto do homem estava molhado e sujo de lama... sua roupa havia se rasgado em vários lugares, e sobre o ombro esquerdo havia um rasgo sobre a pele.
como explicar? pareceu-me que o mundo inteiro, naquele momento havia perdido a cor. só havia o vermelho que corria pelo ferimento... o vermelho da vida, da morte... o vermelho do sangue.
a dor tornou-se insuportável... reclamando a única coisa que podia aparta-la... a dor... a fome...
a fome.
o homem se debateu por vários minutos, tentando livrar seu corpo de meu abraço. uma das minhas mãos estava sobre sua boca, impedindo que ele gritasse por ajuda. a outra segurava fortemente seu corpo, enquanto meus lábios tocavam a pele no local da ferida, e eu bebia da vida que esvaia do corpo dele...
algo em minha mente parecia gritar de horror... eu estava bebendo do sangue daquele homem!
mas a única voz que eu ouvia verdadeiramente era a voz da fome. era ela que me guiou até aquele momento...
e o sabor... ah! era como morrer nos braços da mulher amada, após uma noite de amor... era doce, era intenso, era tudo o que importava...
os esforços do homem se tornavam mais e mais fracos, com o passar dos minutos...
a cadência do coração parecia diminuir e diminuir...
a chama de uma vela que é soprada pelo vento noturno...
com um último espasmo de nossos dois corpos, o sangue parou de fluir.
caí ao lado do corpo morto, pois também eu morrera alí, naquele momento.
eu fitei as estrelas por um momento... ou por várias horas... percebendo as novas cores que elas mostravam para mim...
pensando...
e chorando...
sonhado
por the dreamer às 12:12 AM
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Quinta-feira, Março 04, 2004
engasguei, acordando de repente, um pouco ofegante... não conseguia ver nada, não era possível nem ao menos distinguir se meus olhos estavam abertos ou fechados, tamanha a escuridão. o ar abafado me pôs em estado de alerta. - onde eu estava? abri os braços, tentando me levantar, mas ele se chocaram em duas paredes laterais, a poucos centímetros do meu corpo. algo estava errado.
eu não conseguia me lembrar com clareza o que havia acontecido. lembrava do bar, da rua, dos olhos... mas a cabeça latejava demais... e aquela situação estava começando a me deixar preocupado.
minhas mãos começaram a tatear o local... parecia ser uma espécie de caixa, havia paredes por todos os lados e uma tampa por cima de mim. as paredes laterais pareciam ser mais largas na altura dos ombros, como se na forma exata do meu corpo...
bati algumas vezes contra as paredes, gritando, mas apenas ouvi um som surdo e a minha própria voz fraca e falha.
havia algo sobre meu peito, que fazia um barulho seco enquanto me movimentava. passei minha mão sobre o que pareciam ser plantas secas. que pesadelo era aquele, afinal?
súbito, a realidade me encontrou de forma crua:
- um caixão! - aquilo era um caixão!
imaginei por um momento que aquilo fosse uma brincadeira macabra de meus amigos na arte... comecei a chamar os nomes deles, sem sucesso. como? como havia eu parado dentro de prisão tão irreal???
comecei a golpear a tampa sobre meu corpo... havia pouco espaço para me mover, então os golpes que eu desferia eram curtos, mas pareciam ter uma eficiência grande sobre a madeira.
continuei com meu intento, tentando respirar o menos possível. quanto tempo haveria de ter passado, até que eu acordei do torpor? não me lembrava de ter entrado em um caixão... na verdade, não me lembrava de nada após a visão dos olhos, na noite londrina.
o som surdo produzido pelas batidas no tampo eram incomuns para mim. tudo parecia fantasioso demais, naquele lugar. eu precisava sair dali o mais rápido possível.
minhas mãos estavam ficando machucadas, mas o tampo parecia também ceder. de repente, uma batida retirou uma lasca da madeira, deixando cair um punhado de terra molhada sobre minha cabeça.
- eu estou enterrado? por deus, eu estou sob a terra, como os mortos!
naquele momento, qualquer sinal de razão que havia em mim desapareceu, deixando somente uma enorme determinação em sair daquela prisão medonha. bati novamente, abrindo agora um rombo maior e deixando uma quantidade grande de terra cair sobre mim.
continuei naquele tormento, batendo com toda a força dos meus braços e pernas na madeira, destruindo o que me separava da terra, até que meu corpo foi totamente coberto pela sujeira, trazendo um cheiro de podridão ao ar já escasso.
minhas unhas agora partiam ao encontro da terra, empurrando e escavando numa posição que não era nada natural a um homem... sentia-me como um verme, escavando um caminho pelas entranhas de um animal gigantesco, curvando-me, com os olhos, nariz e boca cheios de sujeira enquanto buscava a saída para o mundo exterior.
não me importava mais com nada. não pensava mais em como havia chegado até ali, em como seu corpo havia parado dentro de um caixão e como havia sido enterrado. queria apenas sair daquela situação. a terra parecia mais mole, a medida que eu ia subindo, até que senti a terra se desfazer em minha mão... havia alcançado a superfície.
com uma força que nem eu sabia ter, consegui me retirar daquela tumba e sair para o mundo exterior, onde uma chuva torrencial lavava a podridão do meu corpo. sentei-me sobre a terra remexida, respirando a primeira vez depois de um tempo que parecera enorme, olhei para a inscrição no túmulo, que carregava meu nome e as inscrições "sua alma de poeta se vai, doce amor, mas estará sempre vivo em meu coração. helena".
que bruxaria era aquela... eu estava lendo meu próprio epitáfio. helena compactuava com aquela brincadeira doentia. alguma explicação haveria de ter para tal monstruosidade.
não conseguia pensar direito, agora... a dor de cabeça tomava completamente meus pensamentos. e uma outra dor aguda e profunda parecia ter se instalado no fundo de meu abdome. era como se um pequeno fogo incendiasse meu corpo aos poucos, por dentro. ou como se milhares de larvas consumissem meus órgãos. uma dor que começara fraca, mas que agora tomava o meu corpo a ponto de pensar que eu estava ficando louco.
subitamente, um barulho chamou a minha atenção. alguém se aproximava. pude sentir o som das pegadas, através da chuva que caía. álguém se aproximava.
e naquele momento, eu a senti pela primeira vez... e percebi no que eu me transformara...
sonhado
por the dreamer às 1:43 AM
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Terça-feira, Março 02, 2004
eu ainda me lembro dos olhos.
após todos esses anos, são os olhos que sempre me vêm à mente, quando lembro daquela que seria a última noite da minha vida anterior.
sempre tive uma vida relativamente fácil. meus pais eram donos de grandes propriedades no leste de londres e haviam me passado 3 apartamentos, quando me casei com helena. eles acreditavam que se me dessem dinheiro, somente, eu iria acabar com tudo nas noites em bares e clubes com meus estranhos amigos. mas desde o momento em que conheci helena, muito havia mudado em mim... eu desejava dar a ela e ao nosso futuro filho a mais feliz vida.
claro que eu ainda frequentava as rodas de escritores e artistas jovens e anônimos como eu. todos procurando inspiração na noite, na escuridão e nos encantos do que era proibido, horroroso e sedutor.
declamações de poemas que falavam sobre morte e amor (a dupla adorável)... contos sobre mortos que caminhavam junto aos vivos, donzelas entregues à lascívia em sonhos de sexo e dor...
todos sorríamos, quando algum terminava sua história, pois era chegada a hora das críticas nem sempre construtivas do grupo. críticas essas que vez por outra causavam discussões acaloradas entre o escritor e aqueles que os criticavam.
foi durante um desses momentos de discussão que notei o estranho senhor que havia se sentado no canto oposto ao de nossa mesa. ele parecia muito interessado no nosso grupo, especialmente em mim.
eu sabia que muitos dos rapazes do grupo preferiam a companhia de outros rapazes, quando iam se recolher... esse parecia ser o caso do misterioso homem que me fitava com olhos fixos e ele parecia ter a mesma idéia sobre mim. decidi que não tomaria nenhuma ação, já que ele não me importunava, mas juro que aqueles olhos pareciam ter alguma coisa.
naquele momento, por alguma razão me lembrei das histórias sobre a áfrica... os caçadores sempre contavam sobre como os predadores olhavam fixamente a presa... aprendendo seus movimentos, antecipando qualquer reação e, sobretudo, desejando sua vítima mais do que tudo no mundo.
engoli o resto do vinho de minha caneca e resolvi esquecer a idéia idiota. já estava ficando tarde e prometi à minha querida que chegaria cedo. hoje iríamos comemorar nosso primeiro ano de casados e a descoberta da gravidez de minha amada.
me despedi de todos e olhei de relance para a mesa do canto, que agora estava vazia. talvez o estranho tenha resolvido que a caça dele não valeria a pena.
estava bastante frio lá fora. era primavera, mas o inverno ainda insistia em levar suas garras pelas ruas estreitas pouco movimentadas da cidade.
depois de alguns minutos, um calafrio percorreu meu corpo. atribui a sensação ao frio, ao nevoeiro e à noite sem lua, que tornava todas as sombras um pouco mais misteriosas e assustadoras. por um momento, pensei ter ouvido o som de passos, ao longe, mas ao me virar, não pude perceber nada mais do que o nevoeiro que parecia ter se tornado mais e mais espesso.
um vulto pareceu ter atravessado à minha frente... sem dúvida mais um pobre desorientado pela noite londrina...
algo me empurrou fortemente, e caí de costas no chão, ficando sem o ar dos pulmões. eu procurei algo nas sombras próximas, um ladrão, um mendigo desesperado de fome. mas nada vi ou ouvi.
olhos! um par de olhos me fitava, junto à parede de um prédio, a minha direita. os olhos do misterioso homem no bar! seria ele um assaltante?
- ei! o que vc quer? - gritei, em direção aos olhos, mas ele já não estavam mais lá...
me senti, por um momento, em um dos contos que ouvira tantas vezes, nas noites dos bares e pubs londrinos.
levantei-me e comecei a correr, em direção à avenida que havia no final do bloco, mas novamente fui empurrado quase indo ao chão uma segunda vez, mas assim que recuperei o equilíbrio, iniciei novamente a corrida, com todas as minhas energias, agora.
eu senti, pela primeira vez a sensação... uma coisa antiga, primal e selvagem... eu estava sendo caçado.
mal acabara de dar 3 passos, algo me puxou para o lado com uma força irresistível e caí ajoelhado. meu coração batia forte dentro do peito.
- quem é vc? o que quer???
num relance, vi os olhos se aproximando de mim...
de repente, a dor.
o pescoço... senti uma dor aguda e profunda no pescoço e dedos poderosos me agarraram, mantendo minha posição.
algo... algo começara a acontecer... meus sentidos ficaram paralisados... a dor diminuia agora... as cores foram ficando cada vez mais pálidas o frio... o frio ia tomando conta do meu corpo... tudo parecia acontecendo vagarosamente. lembro de pensar em helena e em meu futuro filho. mas naquele momento, o único desejo que tinha era o de me entregar a escuridão que tomava conta do meu campo de visão.
- calma, calma... ainda não é seu tempo.
uma voz distante parecia tentar me acalmar... uma voz serena e antiga...
de repente, um gosto toma minha boca... algo que me fez engasgar e que queimava a garganta... um líquido que adquiria aos poucos um sabor doce e metálico e tomava minha boca e garganta...
- eu o salvo e o condeno. teus serão a noite, a morte e a vida eterna. beba, criança...
a escuridão deu lugar a uma chama que tomou minha visão... todo o meu corpo queimava com uma dor alucinante. o que fora feito de mim? todos os músculos do meu corpo de contorciam e tremiam, queimando como o inferno... meu coração que havia quase parado começara a bater cada vez mais acelerado, um som que tomou meus ouvidos... que preenchia o ar como um tambor... e me lembrei da áfrica... um caçador e a presa...
e então meu coração parou.
sonhado
por the dreamer às 12:29 AM
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Segunda-feira, Março 01, 2004
eu não quero mais lembrar
pois a lembrança traz a dor da perda de volta...
eu não quero mais lembrar
que um dia a felicidade sussurou segredos em meu ouvido...
eu não quero mais lembrar
dos sonhos nas noites calmas do inverno, sob um edredon de estrelas...
pois a lembrança me doi...
a dor de promessas não cumpridas,
de palavras jogadas ao vento,
de lágrimas derramadas no silêncio...
eu quero apenas esperar
o momento final,
a promessa de paz,
o alívio à dor...
sonhado
por the dreamer às 11:24 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 27, 2004
hoje fui a centro do rio...
e fui na leonardo da vinci...
e, assim... é impressionante... eu queria MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUITO ler aquilo tudo! dá uma dorzinha, até, quando vou embora...
PUTZ... eu queria muito, muito ter tempo pra ler tudo o que eu gostaria...
sonhado
por the dreamer às 11:15 PM
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iris
and i'd give up forever to touch you
'cause i know that you feel me somehow
you're the closest to heaven that i'll
ever be
and i don't want to go home right now
and all i can taste is this moment
and all i can breathe is your life
'cause sooner or later it's over
i just don't want to miss you tonight
and i don't want the world to see me
'cause i don't think that they'd
understand
when everything's made to be broken
i just want you to know who i am
and you can't fight the tears that ain't
coming
or the moment of truth in your lies
when everything feels like the movies
yeah you bleed just to know you're alive
and i don't want the world to see me
'cause i don't think that they'd
understand
when everything's made to be broken
i just want you to know who i am
i just want you to know who i am
i just want you to know who i am
i just want you to know who i am
sonhado
por the dreamer às 10:10 PM
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queria atenção...
:(
assim... eu me sinto péssimo, porque parece que tudo o que eu falo é interpretado da maneira errada... será que a gente não consegue se comunicar mais??? putz... se vc soubesse, como esse tipo de coisa me deixa mal...
e... olha só... não é só vc que é reflexo de como te tratam... acho que todo mundo é assim...
acabou o tempo de a gente ficar vendo as coisas passarem... esperando e esperando... acho que não dá mais... o tempo passa devorando tudo o que é deixado no caminho...
sonhado
por the dreamer às 1:17 AM
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